Gente do campo: produtor cadeirante investe no plantio sem uso do solo e vira ALTERACAO em Goiás

Atualizado: 19 de out. de 2021

Com 4 mil pés de alface, a chácara do agricultor Paulo Alves serve de sala de aula para cursos de hidroponia e de hortas. Ele se orgulha de ter voltado a estudar e concluir o 2º grau já adulto, após repetir a terceira série até os 18 anos, com dificuldades para ler e escrever.


Por Vivian Souza

26/08/2021 06h00 Atualizado há 18 horas

Após aperfeiçoar o uso da técnica hidroponia, a produção de Paulo subiu de 800 pés de alface para 4 mil — Foto: Divulgação


Um verdadeiro contador de histórias, o agricultor Paulo Rodrigues Alves já passou por muitas dificuldades na vida, como a perda do movimento das pernas e a dificuldade de aprendizado devido à dislexia. Ainda assim, hoje, aos 57 anos, ele é referência no plantio de alfaces na cidade de Nazário, em Goiás, graças à adoção da hidroponia.

"Quando perguntam, eu falo: ‘Eu não sou deficiente, eu sou eficiente’. Tenho minhas limitações, como todo homem e toda mulher têm”, afirma o produtor que, ao encarar a cadeira de rodas, diz apenas ter sentido medo da piedade alheia. A técnica hidroponia, adotada por Paulo, consiste em cultivar sem o uso do solo. Nela, as raízes recebem uma solução que contém água e todos os nutrientes essenciais para o desenvolvimento da planta, explica Ricardo Pereira, engenheiro agrônomo e instrutor do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) Goiás. Com o método, a hortaliça, que seria apenas para sustento próprio, rendeu o suficiente para a comercialização e a lavoura de Paulo se tornou sala de aula para cursos sobre o tema e para estudantes de escolas públicas.


Medo da pena

Paulo começou a trabalhar ainda criança, aos 8 anos de idade, depois que seu pai teve um infarto fulminante e ele se viu sozinho com a mãe, que era costureira. Na época, um dos tios lhe entregou uma enxada e o chamou para ajudar em uma roça de arroz plantada às margens de uma rodovia.

“Dessa lavoura, que meu tio tratou para mim, minha mãe comprou um rádio. Aquilo para mim... Até aquele dia eu nunca tinha usado uma calça comprida. (A colheita) deu 21 sacos (de arroz), guardamos para a despesa, vendemos e ainda abrimos uma poupança. Todo trabalho que eu fazia a gente depositava”, recorda.

Foi com essa poupança que, aos 18 anos, Paulo comprou uma caminhonete e decidiu mudar de ramo. Trocou a roça pelo transporte de leite para uma fábrica de queijo.

Conforme realizava as entregas, ele começou a se interessar pela produção do laticínio e se ofereceu para trabalhar, sem salário, em troca do aprendizado. Sua nova rotina, então, era pela manhã transportar o leite, de onde tirava a sua renda, e de tarde cumprir expediente na fábrica.

Essa dinâmica permaneceu por 11 meses, quando a sua caminhonete, que funcionava a gás, pegou fogo. “Queimou toda e aí eu fiquei sem dinheiro, porque tudo o que eu tinha foi para comprar a caminhonete”.


Apesar de estar dentro do veículo com um ajudante na hora do acidente, ambos saíram sem se machucar. “Mas demos sorte que na região o povo estava arando a terra e aí fomos jogando terra para apagar o fogo, conseguimos salvar o leite de dentro da caminhonete”.

Se encontrando desempregado, Paulo foi convidado a abrir uma sociedade com um primo para produzir queijos. Como ele tinha o conhecimento, seria o responsável pela mão de obra e o primo pelo investimento em dinheiro.

A fábrica foi crescendo e em 4 meses o volume obtido subiu de mil litros de leite para 5 mil, se fazendo necessário, inclusive, abrir uma estrutura para os queijos em um povoado próximo da fazenda do primo.

A parceria deu certo por 13 anos. Depois deste período, Paulo sentiu a necessidade de ter algo completamente dele, já que, com a nova unidade, ele recebia apenas 10% dos lucros. Assim, o agricultor começou a fazer queijos sozinho.

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Aos 36 anos, sua própria produção de queijos era enviada para outros estados e o transporte era feito em parceria com o primo, que também continuou a fabricar sozinho.

Em janeiro de 1999, os motoristas que faziam este translado estavam cansados devido à demanda e Paulo precisou conduzir o caminhão com os produtos à São Paulo.

Ainda enquanto passavam por Araguari, em Minas Gerais, o freio do caminhão falhou, fazendo com que o automóvel caísse em barrancos e quase tombasse em um rio.

“O caminhão deu perda total, eu machuquei a coluna e tive um corte de leve na sobrancelha. A fratura da minha coluna foi porque eu segurei o peso do impacto nas pernas e a minha coluna comprimiu e esmagou minhas pernas. Eu estava sem cinto”, recorda.


Paulo relata que nunca se deixou abater: “Quando as pessoas chegavam para me visitar, me encontravam sorrindo e pensando positivo”.

Após descobrir as sequelas do acidente, o agricultor teve uma preocupação: “Eu senti medo das pessoas sentirem dó, dos outros me julgarem como um inválido. Eu não queria ser um inválido".


Um mês após o acidente, o produtor já tinha ingressado em uma instituição para fazer fisioterapia e, 6 meses depois, montou uma sorveteria. “Com essa sorveteria eu construí a minha casa, dei estudo aos meus filhos”, diz.

O negócio foi tocado por Paulo até 2009, quando o passou para sua filha, Ana Paula, pois ela iria se casar e precisava de um sustento. Durante a pandemia, a família teve que vender o negócio para poder pagar outras contas, como aluguel.

Além disso, a família de Paulo enfrenta mais um desafio. Seu genro luta contra uma leucemia há 2 anos.

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Estudar para plantar

“Eu tenho o segundo grau completo, viu?”, conta Paulo logo no início da entrevista. A conquista é motivo de orgulho para o produtor que possui dislexia, um transtorno genético que dificulta o aprendizado e a assimilação de signos escritos em signos verbais. A condição atinge entre 5% e 17% da população mundial, segundo a Associação Brasileira de Dislexia (ABD).


Por isso, mesmo gostando de estudar e tendo facilidade para aprender várias coisas, ele sempre teve dificuldade em ler e escrever, o que fez com que permanecesse até os 18 anos na 3ª série do ensino fundamental.

Durante toda a infância e adolescência Paulo passava o dia na roça e, depois do expediente, atravessava 7 km a pé para ir às aulas noturnas.

“Com toda essa dificuldade que eu tinha para aprender a ler e escrever, eu nunca deixei de estudar. (...) Não perdia a aula”.

Paulo conta que mesmo que nas provas ele respondesse às perguntas corretamente, acabava sendo reprovado pelas falhas na escrita. Quando fez 18 anos, acabou desistindo de estudar para se dedicar integralmente ao trabalho.

Ainda antes do acidente que retirou o movimento de suas pernas, Paulo sentiu necessidade de aprender a ler porque começou a ir à igreja e queria entender a bíblia. Ele foi tentando a leitura e aos poucos melhorou, mas ainda tinha dificuldades.

Apenas depois dos 36 anos é que ele decidiu voltar à escola e conseguiu completar o ensino através do sistema de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Para ele, a educação é extremamente importante.

“Antigamente me falavam que tinha que estudar para não ficar na roça e trabalhar para os outros. Eu disse o mesmo para os meus filhos, ‘Vocês têm que estudar, senão vão trabalhar na roça’. Mas hoje em dia tem que estudar para ir para a roça também. Eu estudei para conseguir meus pés de alface”.

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De volta à lavoura

Depois da sorveteria, Paulo construiu sozinho um triciclo adaptado, a partir de uma motocicleta antiga. Nele, o produtor instalou uma carroceria para carregar a sua cadeira de rodas e uma caixa de som e começou a fazer propagandas para o comércio.


Nesse meio tempo, o agricultor conta que ajudava um morador de sua cidade, que trabalhava com plantio convencional de alface. Um dia, esse senhor pediu para que ele pesquisasse sobre hidroponia e montasse um plano para aplicar a técnica na lavoura dele.

“Aí eu fiz a pesquisa, fiz um curso pela internet e fiz o projeto para ele e entreguei na mão dele, e ele falou pra mim ‘ah, não estou acreditando nesse trem’. Eu, com o projeto na mão, com espaço no meu quintal, decidi montar uma hidroponia para ver se dava certo, a princípio para consumo da família”.

Em 2017, ele colocou o plano em prática. Para isso, Paulo precisou comprar tanques de água, bombas e canos PVC. Com apenas duas bancadas, ele obteve 800 pés de alface e passou a vender o produto, usando o seu triciclo.


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