Brasil, maior exportador de soja do mundo, quer importar esse grão. O que aconteceu?

Existem apenas quatro países que realmente importam no mundo dos exportadores de soja: Brasil, Estados Unidos, Argentina e Paraguai. O Brasil exporta quase 54% de toda a soja exportada desses quatro países, e eles basicamente ficaram sem feijão para vender.

O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de soja, mas o uso doméstico crescente e as vendas recordes para a China esgotaram os suprimentos. O governo anunciou a suspensão das tarifas de importação em uma tentativa de encorajar as importações e suprimir a inflação alimentar doméstica galopante.


Esta é uma notícia realmente de peso no mundo dos grãos e pode, em breve, ser uma grande notícia para todos no planeta, caso o preço da soja fora do Brasil venha a imitar o preço da soja doméstica brasileira, ao que o USDA afirma serem níveis de preços recordes.


Grande parte do problema foi auto-infligido: analistas privados estimam que o Brasil vendeu soja em demasia para exportação, e o país tem regras rígidas quanto à origem e aos tipos de soja permitidos à importação. Antes da retirada das tarifas de importação [que permanecem zeradas até o final de 2021], os únicos países dos quais o Brasil podia importar soja sem penalidade tarifária eram os outros membros do acordo comercial regional do Mercosul. [Nota Forbes Agro: o Brasil importou 195 mil toneladas em 2019, por US$ 78 milhões; em 2020 foram 1 milhão/ton por US$ 438 milhões e, neste ano, de janeiro a outubro foram 882 mil/ton por US$ 455 milhões. O Brasil só importou volumes nessa quantidade no final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Vale registrar que em 1990 o país já era o segundo maior produtor de soja do mundo, com 26 milhões de toneladas cultivadas em 12 milhões de hectares. A Conab estima, para a safra 2021/22, o cultivo de soja em 39,9 milhões de hectares.]


Os EUA são o segundo maior exportador de soja do mundo, e o único grande exportador de soja fora do pacto do Mercosul, o que significa que a remoção dos direitos de importação deve permitir importações dos EUA. Mas o Brasil não pode importar a maioria da soja geneticamente modificada, o que significa que não pode recorrer facilmente aos EUA para atender às suas necessidades de importação de soja. Então, o Brasil se encontra em um beco quando se trata de fontes de importação de soja.


Isso está levando a mais escassez de soja no Brasil do que se poderia esperar, embora os estoques finais globais de soja estejam acima de sua média de dez anos, com a produção global projetada para ser recorde neste ano-safra. Porém, mesmo com altos níveis de produção, o uso global está ultrapassando a oferta. O que significa que os estoques globais de soja devem cair na temporada de cultivo de 2020/21, marcando o terceiro ano consecutivo de queda nos estoques globais da oleaginosa.


A China desempenhou um grande papel no enigma da soja, e o que ela fará a seguir provavelmente determinará o preço global do grão em um futuro próximo. A maior parte das exportações dessa cultura no Brasil estão comprometidas com a China. Agora que o Brasil, de fato, superou sua capacidade, a China deve recorrer aos Estados Unidos, Argentina e Paraguai para suas necessidades de importação restantes. Em uma ironia agrícola bizarra, a China estará competindo com seu principal fornecedor de soja por, vejam só, soja. Esta é uma reviravolta incomum que beneficiará diretamente os agricultores dos EUA.


O USDA projeta que a China precisará importar um recorde de 100 milhões de toneladas de soja este ano. Nos últimos meses, o país asiático está em um ritmo recorde de compras de soja dos Estados Unidos para a safra 2020/21. Não é de admirar que os preços da soja nos EUA tenham subido mais de 20% desde agosto. Vale ficar de olho para o resto do ano-safra, que começou em 1º de setembro e vai até 31 de agosto do ano que vem. Deve ser um período interessante.


Sal Gilbertie é presidente da Teucrium Trading, com sede em Nova York, com experiência de mais de três décadas no mercado de commodities agrícolas e energia (incluindo bioenergia). É colaborador da Forbes EUA.


Fonte: Forbes

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